segunda-feira, 30 de março de 2009

Receita para ser um pintor solto (com conhecimento de causa, lógico)

  • ter talento, segundo Leffel, como capacidade de correr riscos;
  • aceitar a maturidade como o início do trabalho expressivo, como afirma Burne Hogarth;
  • ser maduro, ou seja, bancar os próprios desejos, pela capacidade de lidar com as frustrações e superá-las;
  • ter domínio dos fundamentos conceituais e técnicos do desenho e da pintura;
  • ter a pintura como forma de entendimento e expressão do mundo visível;
  • cultivar o desapego, não orientar-se pela idéia de perda e ganho;
  • não fingir liberdade, nem soltura;
  • aceitar que a liberdade nasce do domínio técnico;
  • ter desprendimento do ego e da vaidade;
  • não buscar o indício, a certeza ou garantia de êxito durante a execução;
  • não buscar o fim (resultado), buscar o meio (processo);
  • ser sincero, sensível, estar disponível na interação com a obra;
  • estar imerso no que faz;
  • buscar a prática estritamente intuitiva;
  • transformar o processo em questão ou problema a ser resolvido;
  • aplicar o princípio da Simplicidade;
  • manter a abstração do início ao fim da obra;
  • não começar a pintura pelo fim (detalhe);
  • praticar a repetição;
  • buscar a coerência, que consiste em encurtar a distância entre o que pensamos ou falamos e o que fazemos;
  • e o mais importante: não acreditar em receitas.

20 comentários:

  1. Sempre com comentários corretos e coerentes é isso ai,levar a luz aqueles que estão nas trevas da ignorancia.Um abraço Marcos Damascena

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  2. Oi Marcos, na verdade, o máximo com que posso contribuir é levar uma "vela" ou um "fósforo". Tenho ciência de que se trata de uma convicção minha, um ponto de vista meu, e não necessariamente de uma "missão" pela qual dissemine a verdade. O que eu tento fazer é falar um pouco de questões que ninguém trata simplesmente porque é mais fácil e cômodo aceitar ou repetir certas "verdades" (com as respectivas posturas) feito papagaio. Algo, que incomoda para não dizer irrita, é essa falácia e o desdém em geral de pessoas que tem preconceito com a prática do trabalho figurativo realista. Ainda acredito naquele ditado "quem desdenha, quer comprar".

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  3. Concordo em todos os sentidos e acho que uma vela ali outra acolá, pelos menos é um alento à aqueles que buscam um sentido difente e é dificil de se achar nos dias atuais.

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  4. Oi Mauricio,esse termo que usa de pintura solta ou pressa no é um tanto inadequada?.
    pra mim existe pintura com conhecimento tecnico e sem conhecimento tecnico.Faço uma pintura com muito detalhes, mais posso afirmar que ela está nesse termo que acho errado,(pintura solta).
    Vejo tambem um certo preconceito ou falta de conhecimento, quando se fala de uma pintura mais detalhada e usa esse termo.Um ABRAÇO.

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  5. Oi Marcos, o grande problema, como dizia Rilke, é que muito em arte pertence ao campo do indizível. As palavras apenas podem tocar o que a imagem representa. Mesmo assim, elas são importantes instrumentos de referência para poder pensar e dirigir a prática. Por isso, dependendo do contexto, as palavras podem ou não dizer algo que tenha fundamento. Assim como há pintura com e sem técnica, também há pintura solta ou dura (o termo "pintura presa" só faz sentido se disser ao quê). Schmid diz que essa qualidade de pintura "solta" pertence à linha do "Bravura Painting", cujos representantes são Velásquez, Sargent, Sorolla, Serov e companhia. A principal característica é o gesto livre das pinceladas combinado à precisão de colocação. Diz ainda que soltura, liberdade ("looseness") e precisão não são qualidades antagônicas, como usualmente se pressupõe. Logicamente, isso não significa que quem não segue essa linha possui uma pintura dura ou inexpressiva. Leffel diferencia a pintura literal e descritiva, na qual o pintor coloca tudo o que vê sem seleção do mais significativo, da pintura artística, mais conceitual e analítica. Outros autores como Fayga Ostrower, Arheim, Harold Speed reafirmam a mesma idéia com outros termos como hierarquia e ordenamento. Arheim, em seu livro Arte e percepção visual, afirma que em geral os grandes mestres do passado aplicaram o Princípio da Simplicidade, que pode ser resumido como capacidade de dizer com “poucas palavras” - de forma concisa, sucinta - o essencial, o mínimo necessário para poderem se expressar. Neste segundo caso, a idéia de soltura ou liberdade está associada ao trabalho mental do artista de abstrair elementos do real (mesmo dentro da lógica realista), ordenar a imagem com base nos conceitos técnicos e descolar a imagem de seu objeto. Vejo em dois níveis a problemática do excesso de detalhe: do ponto de vista técnico, é ausência de seleção, como apontou Leffel, e, também, a necessidade de o detalhe sustentar a pintura pela ausência de estrutura; do ponto de vista expressivo, se o detalhe tem função que corrobora e reafirma uma determinada concepção artística. Bons exemplos de artistas que trabalham num alto nível de acabamento e que possuem dupla qualidade tanto estética quanto expressiva, são Andrew Wyeth, Antonio Lopes e Jose Ribera. O que pode ser verificado nestes artistas é que o detalhe tem função “essencial” na tradução de suas verdades internas. Tecnicamente, os detalhes que colocam estão subordinados hierarquicamente ao todo e este é fortemente estruturado. Não acredito que da minha parte se trate de preconceito ou falta de conhecimento usar estes termos. O preconceito existe quando não há conceito que fundamente as explicações e quando se generaliza passando por cima de critérios de ordenamento, hierarquia e seleção.
    Abs.

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  6. Primeiramente peço desculpas pelas palavras mau colocadas,não queria colocar você entre esses artistas sem conhecimento ou preconceituosos, pois seria uma inverdade sem tamanho,falo claro de outros que tem muito chão ainda para pisar.
    Entendir seu ponto de vista sua base e tem que ser está correta, baseado nos grandes mestres. Tenho outro ponto de vista mas não entrarei em detelhes. Baseado no que você disse busco essa dupla qualidade desse notáveis artistas espero chega lá. ABRACÃO.

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  7. Oi Marcos, tudo bem. Quis apenas deixar mais claro o meu ponto de vista sobre o tipo de pintura que sobrevive apenas da ênfase sobre o detalhe, muito comum na pintura figurativa, em detrimento de uma visão total, mais abrangente da estrutura. Essa prática detalhista, lógico, é totalmente legítima, assim como é legítima uma visão discordante. Acho que dessa forma se constrói o diálogo, um dos motivos pelos quais escrevo no blog. Eu mesmo quando comecei no curso de pintura em 1986, era criticado pelo meu professor por ser muito detalhista. "Analítico" era o termo usado por Pedro Alzaga. Hoje vejo que ele tinha razão, é o que vivo dizendo aos meus alunos, mas principalmente por ensinar dentro do estilo pictórico. Outros bons exemplos de pintores lineares e bem detalhistas (e que possuem boa estrutura), de alto nível, de que me lembrei são Frederic Lord Leighton, William Bouguereau, Gerome e Cabanel, além claro, de Ingres e David.
    Abraços.

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  8. Qdo abri esse site me encontrei, confesso q procurei pinturas para poder me inspirar e ja estava desanimando qdo sem querer entrei pelo google e encontrei esse artista q confesso não conhecia
    E atraves de suas artes conheci a pintura comteporanea, é como se eu vivesse um momento unico, me identifiquei totalmente e até me emocionei, desenho desde pequena e nunca fiz curso algum e gostaria muito de poder cursar uma faculdade de arte
    Gostaria de saber se fez retratos de criancas ou indios, gostaria de conhecer melhor o seu trabalho, que é magnifico, parabens tornei sua fã!!!

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  9. Oi Solange,pode conhecer melhor os meus trabalhos visitando o site: www.takiguthi.art.br, que foi atualizado neste mês. E obrigado pelas palavras.

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  10. Olá Maurício.
    Fui um aluno seu ano passado,no começo do ano, de pouca duração, apenas 3 meses.
    Por incrível que pareça, leio até hoje tudo que anotei das suas aulas.
    Conforme o tempo vai passando, vou compreendendo cada vez mais suas palavras como mentor e mestre.
    Este texto me veio a calhar justamente agora, junto ao livro novo da betty edwards que estou lendo - desenhando com o artista interior.
    Muito obrigado por compartilhar textos belos como este.
    Um grande abraço!

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    1. Valeu, Glauco!
      O importante é sempre continuar buscando, com curiosidade e espírito aberto ao aprendizado.
      Forte abraço!

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  11. Este comentário foi removido pelo autor.

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  12. Dicas espetaculares, mas difícil colocá-las em pratica! Alcançando apenas algumas delas, plenamente, já é um excelente começo. Excelente post Maurício!

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    1. Valeu, Marcio!
      Aquela velha história: fácil falar, difícil fazer...
      Forte abraço!

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  13. Mauricio, quero te parabenizar pelo elevado grau de esclarecimento que tens sobre o teu trabalho. O simples fato de perceber a existência da ligação imediata entre pintura e pintor, fazendo desta representação da alma dele. Para que ela alcance o nível de ARTE, apenas conhecimento de técnica não basta. Se faz necessário e fundamental auto-conhecimento, auto-reflexão e polimento de espírito. Por isso essa receita não pode ser alcançada de forma imediata, pois não é conhecimento teórico, e sim uma luta que demanda grande parte de nossa vida no enfrentamento de nossos medos. Isso explica o fato de quando olhamos a obra de grandes mestres em ordem cronológica percebemos uma passagem de, no inicio, uma predominância de detalhamento e pormenores, para, gradativamente, ser suplantada por uma predominância de harmonia, equilíbrio, simplicidade e objetividade. Estas quatro ultimas palavras podem ser resumidas em apenas uma com quatro letras: ARTE. Na falta de qualquer uma delas a ARTE não é alcançada, por mais que a maioria (sem entendimento de causa) diga que foi. Por isso acho que seu título deveria ter a palavra “solto” suplantada por “livre”, para não dar espaço a confusão com “pincelada solta”. No entanto acho que o título mais apropriado seria RECEITA PARA SER UM ARTISTA. Todos os pintores acham que são artistas, mal sabem eles que com sorte 5% conseguem, e isso pouco tem a ver com diploma ou freqüentar ateliê consagrado, e sim de coisas metafísicas e intuitivas. Por isso te parabenizo, pois apesar da tua pouca idade, você é um ARTISTA.
    Meu blog é www.pinturagauchesca.blogspot.com

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    1. Oi Alejandro, muito legais suas palavras. Concordo com sua colocação sobre a diferença entre solto e livre e também sobre a diferença entre o artista e pintor.
      Gostei de suas colocações. Valeu.
      Vou fazer uma visita ao seu site.
      Forte abraço.

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  14. olha gostei de ler esta materia,muito pertinente,abraço

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  15. Acho que o principal de tudo isso, é o último item: Não acreditar em receitas.
    Você pode estudar a técnica, aprender a usar as cores, a segurar o pincel, a dar uma determinada leveza às pinceladas mas você só será um artista se você conseguir representar na tela o seu olhar e a sua emoção, colocar nela a sua alma...

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  16. vc poderia coloca o modo de preparo

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