segunda-feira, 12 de março de 2012

Parada técnica sobre o desenho gestual

Semana passada foi uma verdadeira maratona de análises e estudos no ateliê sobre o tema “Desenho Gestual”. Nas oito turmas em que dou aula, fiz o que chamo de “parada técnica”, uma pausa para conceituar e discutir os aspectos teórico, metodológico, postural e prático que envolve o exercício. O ponto de partida foi o levantamento dos principais padrões mentais de execução e de erros nos desenhos de alunos.
Desde 2003, quando frequentava as sessões de modelo vivo no Centro Cultural Vergueiro, os critérios do gestual, principalmente com as poses rápidas, eram muito nebulosos para mim.
Com a inauguração do ateliê na Frei Caneca em 2007, iniciamos as atividades de modelo vivo, o que levou à necessidade de um enfoque mais aprofundado sobre a concepção e os fundamentos que servissem de critérios para essa prática.
Na época, muitos alunos trouxeram referências da área de ilustração como Burne Hogarth, Vilppu, Loomis e também dos quadrinhos. Contudo, percebi que se tratavam de perspectivas totalmente diferentes se comparadas com as dos esboços pictóricos dos velhos mestres.
Hoje, consigo visualizar melhor o contraste entre os gestuais do tipo linear e pictórico, embora não acredite haver este tipo de distinção descrito formalmente na literatura técnica. Mas é possível entendê-lo a partir de conceitos emprestados de Heinrich Wölfflin, no livro Conceitos Fundamentais da História da Arte.
A abordagem linear, do ponto de vista conceitual, enaltece primordialmente a expressão do “ser” (das coisas como elas são). O desdobramento mais importante é a ênfase do caráter táctil da forma, do modo mais claro e nítido possível. Na prática, aplicada esta ideia ao gestual, a consequência mais direta é a representação da figura com ação, cuja referência para o ordenamento ancora-se no uso da forma tridimensional (esquema de sólidos como cubo, cilindro e esfera).
O estilo pictórico, por sua vez, vê o essencial no registro do movimento, do transitório e efêmero. Incide o olhar sobre a ação da figura (e não sobre a figura com ação) e, para tanto, descola a imagem de seu objeto. Outra diferença substancial do pictórico em relação ao linear é o uso da sugestão, em oposição à descrição (da forma ou do detalhe). No primeiro caso, as partes só ganham força e sentido em função do todo, enquanto no segundo, as partes mantém sua integridade visual intacta.
Atualmente, o gestual pictórico, se assim podemos chama-lo, tornou-se parte integrante fundamental da concepção artística do ateliê. Isto porque constitui o tipo mais livre, dinâmico, possível de representação por observação e também o mais sofisticado em termos de entendimento, no nível mais alto de abstração e concisão. Curiosamente, o ordenamento das informações visuais em movimento, por sensação (sem a mediação das palavras ou da racionalidade), incita o surgimento de um estranho paradoxo: o da ação sem pensamento que contém pensamento. Sem perseguir ou pensar nos critérios, eles aparecem como fundamentos naquilo que fazemos.
Abaixo, alguns gestuais que fiz no tempo entre 4 e 6 minutos.



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3 comentários:

  1. adorei os desenhos dos animais, que demais!!!!

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  2. Muito massa, gostei muito da aula teórica semana passada. Mas confesso que ainda acho nebulosas as noções que diferenciam linear de pictórico. Acho que não me garanto se me botarem à prova perguntando: "Victor, isso esse desenho é linear ou pictórico?".

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  3. Além da dificuldade de diferenciar os dois estilos de abordagem, existe também o modo totalmente diferente de ordenar a imagem como informações visuais bidimensionais e não tri.
    Mas acredito que, com treino, chega lá, pois foi o que aconteceu com a maior parte dos alunos.
    Abs.

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