quarta-feira, 18 de março de 2009

Paciência

Há alguns anos, durante a cerimônia de casamento do meu primo, o padre afirmou que, para a união matrimonial durar, era necessário que ambos tivessem “paciência”. Até aí, nenhuma novidade. Mas curiosa foi sua definição para a virtude: “paciência é saber sofrer”. Nunca tinha pensado nisso e foi interessante notar como essa conotação coincide várias e várias vezes com a atitude daqueles que até gostariam de aprender a desenhar e pintar a figura humana, mas observando a complexidade e dificuldade do tema, confessam não ter paciência para tal empreendimento. A tradução a partir da nova informação poderia ser de que, apesar de atraídos pelo tema, não estariam dispostos a sofrer, seja pela frustração inclusa no “pacote” do aprendizado (visto que o caminho é realmente árduo), seja pela expectativa em relação ao tempo (por ser um investimento de médio, longo prazo).
Assistindo aos documentários sobre as artes japonesas, ficou evidente a diferença de concepção. Para os artistas orientais, paciência é fazer com prazer, está associada ao prazer da realização, ao enfrentamento dos obstáculos (desculpe o clichê), de estar no que faz (como uma espécie de imersão na prática), sem a preocupação com o tempo ou a prestação de contas a outrem.
Ficou patente como a atribuição de sentido totalmente diverso para a mesma palavra pode gerar desdobramentos diametralmente opostos. Ao orientar a nossa percepção dos dados de realidade, a concepção pré-determina nossa relação com os fatos e, portanto, os resultados. Essa é a razão pela qual se pode especular sobre a extrema importância de escolher bem as palavras (e suas definições), as quais conduzem o pensamento e constituem o nosso corpo de convicções.

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