terça-feira, 2 de abril de 2013

"Chovendo no molhado", artigo de Ferreira Gullar

Artigo da Folha de São Paulo do dia 24 de março de 2013
 
Falando com sinceridade: você acha mesmo que pôr cocô numa lata é fazer obra de arte? Teve um cara que fez isso e o que ele quis dizer, ao mandar a latinha com merda para uma galeria de arte, é que arte é merda, certo? Ele estava copiando Marcel Duchamp.
Tratava-se de um protesto? Sim, pode ser, mas protestar não é, por si só, fazer arte. Aliás, há muita poesia de protesto que de poesia não tem nada. É que arte de protesto, antes de tudo, tem que ser arte.
É verdade que o conceito de arte foi mistificado e houve época mesmo em que a habilidade técnica era tida como arte. Mas tudo isso foi posto abaixo pelos verdadeiros artistas. Aliás, a revolução estética, que marcou o início da arte moderna, consistiu precisamente em repelir essa falsa concepção de arte.
Picasso disse certa vez: "Estou pintando uma tela, vou pôr ali um azul; se não tenho azul, ponho um verde". Essa frase, que pode parecer uma piada, é de fato a desmistificação da atividade artística. O que ele disse, de fato, foi que a criação artística nasce de um jogo de acaso e necessidade.
É que, ao iniciar o quadro, a tela está em branco, tudo ali pode acontecer, mas, desde o momento em que se lança a primeira pincelada, reduz-se a probabilidade e começa o processo que irá tornando necessário o que era mero acaso. Isso porque a pintura é uma linguagem, com leis e exigências, que não estão escritas, em função das quais a obra ganha coerência e significação.
Expressão, em princípio, tudo é, já que o que existe expressa algo, tem um significado, seja um gato, uma pedra, uma mancha na parede. Mas são diferentes o significado natural que cada coisa tem e o significado criado pelo músico ao trabalhar a linguagem musical, pelo poeta ao trabalhar a linguagem literária, pelo pintor ao trabalhar a linguagem pictórica.
Em suma, ainda que você admita que pôr casais nus num museu expresse algo, não negará que aqueles casais não são obra de nenhum artista como os quadros que estão ali nas paredes. Qualquer pessoa que tenha um mínimo conhecimento de arte sabe que a expressividade de uma obra artística é resultado da capacidade do autor de lidar com os elementos constitutivos de sua linguagem: a linha, a forma, as cores, a matéria pictórica, incutindo-lhes uma significação que só existirá ali.
Exemplo: a noite estrelada que Van Gogh pintou é uma invenção única dele que a linguagem da arte possibilita. Não é simplesmente uma ideia, mas o produto de uma ação manual, técnica e semântica no âmbito de um universo linguístico chamado pintura.
É diferente de simplesmente ter uma ideia, cuja criação em nada depende de você ter ou não capacidade técnica de realizá-la ou o domínio de uma linguagem, qualquer que seja. O artista conceitual não precisa saber fazer, não precisa fazer e, como não possui linguagem, usa o que já existe e que não foi ele quem fez.
De onde vem então o significado do que não foi feito? Como já disse, tudo o que existe significa, o que não quer dizer que seja uma linguagem, já que esta implica significados inventados por nós. Por isso mesmo, os povos primitivos viam numa montanha um deus ou um demônio.
A significação de uma coisa, um corpo, um objeto, decorre de sua inserção no sistema simbólico humano. Por exemplo, estar nu em um museu tem significação diferente de estar nu em seu quarto.
A diferença óbvia é que o museu é um lugar público, o que torna a nudez chocante. Então, pergunto, por que ficar nu no museu é obra de arte e, no quarto, não?
A resposta obvia é que, para tornar-se "arte", o nu necessita da instituição museu, ou seja, seu significado não é inerente a ele e, sim, à situação em que se encontra.
Isso o torna essencialmente diverso do que conhecemos como obra de arte, cujo significado estético só existe nela, na obra e, mais que isso, é expressão de uma linguagem que é anterior a ela e que se amplia nela e em cada nova obra de que o artista crie. A Mona Lisa não precisa do Louvre para ser obra de arte; é o Louvre que precisa dela para ser museu.

3 comentários:

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    1. This is in response to what I Think your saying, that conceptual art is not Art, though i am not a big fan of conceptual art i think your mistaken.

      When an artist from a work of art projects or illuminates into your seeing, or feeling or thinking,this can considered a work of art.
      so if all an object does is make you see more or feel more or think more,then that object need not be a work of art to be art.
      Since the authentic aesthetic art object, and the conceptual artist Both do the same job..that is they illuminate.
      the Origin of art is skill....but another art form is an ancient one..where we develop a hightend state of concious .. that every thing we see or touch or hear is illuminated. so that all life becomes and aesthetic experience as well. These experiences are illuminated by the modern artist, in schools that we call Galleries. so when i see a pot of shit in a gallery, i see the artist statement he has illuminated the shit into a meaningful thought.that this is just shit. and it is presented with aesthetics. so now having learned to see things differently in my own room, when i look at the corner of a wall, or see a piss stain,,,i may not just see piss... but it may illuminate thoughts in my mind,, such as this nation is being pissed on.or i may just look at the pure colour and shape...
      Art as we know it today is drawing us into the illumination and awareness of life,in the good the bad and the ugly. Modern Art is still young..and every Artist even before the Romantics where artist of their time, reflecting their time.. be it good bad or ugly, and, yes it takes guts or arrogants' to do it...not just living in the ideals of the past. The Steam Engine and the light bulb have already been invented,,but so as drawing and painting.

      I personally do not like much conceptual art, because it depends too much on artists statements, which is conceptual and all about thinking..i think art should be visual first. and above statements are in argument for it, and not against it.In the same way FANTIN LATOUR (1836-1904) though he was not an impressionist he Defended the post impressionists, despite his own practise.. and honored them in some of his famous paintings..he new them talked with them was friends,,,,you would do well to do the same.

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  2. O que FERREIRA GULLAR, e não eu (mas com quem eu concordo plenamente), afirma é que uma obra de arte para ser arte precisa passar pela linguagem, de qualquer natureza (escrita, visual, etc). E o bom exercício da linguagem exige técnica, ou seja, repertório dos instrumentos de expressão. O mero fato de trazer uma experiência estética que ilumina ou nos emociona não é suficiente. Numa igreja, um padre pode nos falar coisas dessa natureza e nem por isso ele se torna artista. Um outro exemplo é dado pelo próprio Ferreira Gullar, quando diz que uma cachoeira é expressiva mas nem por isso é uma obra e arte. Uma lata de merda continua sendo uma lata de merda. Não é o ato verbal que a transformará em arte e nem o local onde se encontra. Somente acreditarão aqueles que têm necessidade de ver a "roupa do rei".
    Segundo Donis A. Dondis, "A arte, qualquer arte, é a manifestação desse anseio humano pela realização espiritual. Para ser válida, a arte nunca deve deixar de comunicar-se com essas aspirações e agir em nome delas. Como destilação de vida, deve purificar a verdade até o mínimo irredutível, e então projetá-la, com uma afirmação poderosa e rica em significado universal, a todos os níveis da sociedade. Quando uma arte é exageradamente esotérica e perde a capacidade de comunicar seus objetivos, é preciso questionar até mesmo a sua validade. É provável que os que interpretam com mais conhecimentos, os especialistas, estejam admirando as 'roupas do rei', temerosos de parecerem loucos ao se deparar com a óbvia nudez dos objetivos da pintura contemporânea. O discernimento, o bom gosto e os juízos de valor podem falhar por completo na excitação da descoberta, mas, quando a ciência, através do experimento, rompe com velhos conceitos, os dados recém-descobertos ligam-se à esperança humana do progresso. Na pintura, isso apenas cria um novo e mais seleto grupo fechado, e a arte se afasta cada vez mais de nossa vida, uma arte que, como descreveu André Gide, volta-se para 'um público impaciente e marchands especuladores'."

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