sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Ensimesmado III

Anotação de 2007: Muitas vezes, trabalhamos os pequenos detalhes (como cílios, rugas, fios de cabelo, reflexo e brilho nos olhos, etc) não só para dar acabamento mas como uma estratégia de "sustentar" o desenho e a pintura. Contudo, o que deve, em princípio, sustentar a leitura é a estrutura dos grandes planos e massas e não o detalhe. Uma boa alternativa, saída muito utilizada pelos pintores pictóricos, para evitar a compensação da falta de estrutura pela ênfase maior dos detalhes é explorar o contraste de pequenos "toques" que geram borda dura ou intermediária, com valores diferentes, altos ou baixos, sobre uma boa base. Isso é suficiente para segurar o olhar. Nesta obra, não há detalhes minuciosos nos olhos, mas o pequeno toque na área adjacente, como na pálpebra inferior gera movimento suficiente para evitar a descrição do específico. O conceito técnico foi manter a leitura fluindo na região periférica dos olhos.
Ensimesmado III, OST, 2007

Comparação

Este foi o primeiro daqueles estudos monocromáticos de estrutura. Montei duas bases semelhantes e, sobre a da direita, fui posteriormente diminuindo o tamanho dos planos. A intenção foi visualizar o meu senso de colocação da base e o grau de pertinência.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Tempo

O tempo de execução de um estudo em geral é o tempo necessário para o entendimento, aprendizado e contemplação dos elementos conceituais ou técnicos envolvidos. A exceção ocorre quando a definição de um prazo curto é condição fundamental do exercício para obrigar o praticante a seguir critérios de modo mais funcional e direto, sem rodeios. Mas independentemente de qualquer imputação de sentido dada ao tempo, o bom pintor ou desenhista é aquele que observa mais (analisa intuitivamente) e executa menos, que age de acordo com a atribuição de função e de prioridades.
A massa abrangente de valor médio por baixo serviu de suporte e o esforço foi de utilizá-la ao máximo como base para sobrepor as variações de valor e pequenas mudanças de plano. Um bom exemplo da aplicação desse princípio são os olhos: há uma massa genérica por baixo, pela colocação posterior de linhas escuras na região da pálpebra superior e de linhas num valor mais alto na pálpebra inferior (com a borracha), os planos se separam e os olhos são configurados.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Grisalha

Ribera, pintor espanhol barroco, é um dos pintores de que mais gosto. Como Van Dyck, também não trabalhava com grisalha, mas usava o impasto para gerar textura de pele. Existe um conselho bem interessante em pintura de que, entre representar o detalhe ou a luz, deve-se escolher a luz. Para entender melhor, na área de luz não se deve colocar detalhes para não gerar competição no olhar. Ribera trabalhou no limiar para conseguir incluir os dois elementos simultaneamente.
Estudo de Ribera, grisalha, OSP

Underpainting (grisalha) e Overpainting (veladuras e glazes)

Uma das maiores dificuldades da pintura de figura humana é resolver o problema da coexistência de matéria e intensidade de cores. O uso do sistema indireto underpainting, como camada de base, representa uma boa saída porque, ao mesmo tempo em que gera densidade pelo uso de pigmentos opacos, serve também para temperar a sobreposição das cores translúcidas e transparentes do overpainting. Dessa forma, têm-se solidez, luz e intensidade.





Embora Anthony Van Dyck não usasse o sistema de grisalha em seu trabalhos (o que percebi, pela análise de algumas de suas pinturas, é que usava apenas impasto com pigmento branco como underpainting com sobreposição de pintura direta colorida, no sistema molhado sobre seco), neste estudo, resolvi adotá-lo para compreender melhor a interação de camadas.

Em nome da arte

Certa vez, veio um amigo da época das exposições de cães visitar o meu ateliê. Havia uma mesa de pimbolim e enquanto jogávamos, percebi que tinha um nariz longo e bem marcado. Perguntei se não tinha interesse de fazer uma máscara do seu rosto para servir de modelo para desenhar.
“Tudo bem”, sem qualquer tipo de hesitação.
“Beleza!” – dificilmente alguém aceitava assim tão prontamente.
O detalhe na época é que não tinha muita experiência (e continuo não tendo) com o gesso e quando ele me perguntou se seu cavanhaque, cultivado por meses, corria perigo, respondi que não, bastava aplicar vaselina nos fios que nada aconteceria. O problema é que eu estava errado. Apliquei uma camada bem espessa de gesso diretamente sobre o seu rosto, deixando um orifício na região da boca para poder respirar com um canudo. Para quem não sabe, o gesso esquenta razoavelmente enquanto seca como uma reação química que não sei explicar.
“Pô, bicho, isso esquenta!”.
“Calma, que já está secando. Mas não fica falando que senão deforma o molde”. Quando o molde secou, resolvi tirar a máscara e ela não vinha. "Putz", pensei, "tem alguma coisa errada" e comecei a suar frio. Resolvi puxar com mais força. Foi quando ele começou a gritar: “Ai, ai! Vai devagar”. Os pelos do queixo e do bigode estavam todos colados ao gesso.
“O que está acontecendo?” – perguntou-me.
Tentei fingir uma calma que não existia – “não foi nada, os pelos parecem que estão um pouco presos”.
“Pô, cara!” – respondeu triste.
Bom, antes deprimido do que desesperado, pensei. Peguei o formão e um martelo e comecei a bater no centro da máscara devagar e nada. Aumentei a força, até que tomado pela angústia comecei a descer a mão com mais vigor. Nunca vou esquecer essa frase dele que fez mudar o rumo das coisas: “Ai, ai, ai, ai! Pô cara, não esquece que tem um ser humano aqui!!!”
Parei para pensar mais um pouco, porque desse jeito não estava funcionando. Tentei quebrar as bordas do gesso com alicate, mas estava muito duro. Até que tive a idéia de pegar uma tesoura de ponta bem fina. Estiquei a máscara para frente, os pelos ficavam bem esticados e fui cortando.
“Ai, ai! Isso dói”.
“Fica quieto, senão não dá para cortar!”
Depois de meia hora de trabalho árduo, consegui finalmente retirar a máscara e todos os fios se encontravam no fundo dela. A aparência do meu amigo não estava muito boa: era um ex-cavanhaque cheio de falhas e com vários pontinhos vermelhos de sangue. É que, como ninguém é perfeito, acabei cortando um pouco de sua pele.
“Pô, cara, o que você fez comigo?! Você tem uma lâmina de barbear?" - foi o que disse quando se viu no espelho.
A minha sorte é que ele era muito tranquilo e quando lhe perguntei se queria retomar o pimbolim, aceitou sem pestanejar (se fosse comigo, já teria ido embora) e continuamos a jogar como se nada tivesse acontecido.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Estudo de Luz

O design, tanto no desenho como na pintura, é o planejamento em relação à composição, forma, valor e cor. Serve de diretriz de ação no processo de execução e está intrinsecamente ligado à técnica. Resolvi fazer uma maquete para compreender como trabalharia a disposição das figuras no espaço e a incidência de luz sobre elas.

Sectários, OST, 2005

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Menos é mais

O uso da paleta restrita implica a idéia de fazer muito com pouco, metaforicamente tirar “leite de pedra”, e a promessa de obter maior domínio sobre um número reduzido de pigmentos. A lógica implícita é a possibilidade de conseguir unidade pela repetição comum de pigmentos formadores das bases, embora isso não seja necessariamente verdade, pois, com paleta restrita, pode-se muito bem criar bases contrastantes.

Ensimesmado I, OST, 2003. Nessa pintura foram usados 6 pigmentos: preto, branco, vermelho de cádmio, light red, amarelo de cádmio escuro e ocre.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Sectário Inerte

Esse foi um pequeno processo preliminar necessário para executar mais um quadro da série "Sectários", chamado Inerte. O conceito foi pintar um quadro de um homem que vai petrificando, mas não tinha referência para pintar um rochedo preto. Por isso, resolvi fazer um a partir do gesso.

O começo foi furar um pote com um cano para servir de estrutura

Papel sulfite comum com fita crepe para dar corpo


Pus gesso, esperei secar e depois com o formão, comecei a raspá-lo e cortá-lo para gerar textura


Outro ponto de vista do gesso esculpido


Coloquei um rosto de massinha (bem mal feito, por sinal) para servir de referência para estabelecer a referência de proporção.


Esboço preliminar do conceito em grafite


Estudo em pastel preto, branco e cinzas


Pintura definitiva, OST, 2009

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Sobre a ansiedade

A ansiedade é, com certeza, um dos maiores entraves no aprendizado. No curso, pela minha experiência, as pessoas quase sempre são muito "aceleradas", ansiosas, e isso atrapalha porque ao invés de traduzir e interpretar os dados visuais, preferem deduzir. O recorrente é a constatação, por parte delas, de que agem dessa forma por suas naturezas. Discuto em aula que, o que parece ser mais um traço exclusivo de personalidade, visto que todos compartilham da mesma idéia de que isso pertence à esfera individual, é na verdade uma estratégia coletiva de sobrevivência dos tempos atuais: racionalidade e raciocínio rápido a partir da combinação de poucas informações são condições fundamentais para o processamento seletivo desse fluxo infinito de imagens e de dados. Contudo, Arte, como diz Rodin, é contemplação. A probabilidade de alguém conseguir apreciar arte "correndo", compreender o que está à sua frente "desesperado" é quase nula. O pré-requisto para o aprendizado (e também fruição), é mudar a perspectiva sobre o tempo, a postura e entender que embora pareça que nós nasçamos assim, no fundo, somos treinados socialmente para sermos assim. Mas o que é bom na vida cotidiana, pois, lembremos, se não houvesse essa faculdade desenvolvida, seríamos "engolidos" pelas coisas, não o é necessariamente na arte (terreno onde poderíamos, em tese, desfrutar de repouso e descanso - embora tenha se transformado num sintoma pós-moderno de mesmas características). A mudança que se faz necessária é vislumbramento de outra possibilidade, nada remota, de escolher não ser assim. Em pintura, para haver aperfeiçoamento, não podemos acreditar naquele ditado "pau que nasce torto, morre torto" e o tempo na arte é o da necessidade, não o da produtividade ou do cálculo custo-benefício.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

desenho estruturante x desenho definitivo

Desenho estruturante: Um bom esboço deve ser sucinto, lacônico, não prolixo

Desenho definitivo: com refinamento dado pelos detalhes, brilhos e accents

Porque a gente aprende com a experiência...

Essa história peguei de uma anotação minha de 2000, quando ainda estava desenvolvendo uma metodologia para as aulas. O caso desse aluno foi assim: um senhor espanhol queria fazer um retrato da neta, mas sem a intenção primeira de aprender. Queria agradar a esposa e a neta. Acreditava no milagre de, sem saber desenho, conseguir pintar um quadro. Vi que ele não tinha base alguma e comecei a primeira aula explicando a estrutura do desenho e da camada básica de cor e valor. Expliquei os conceitos técnicos envolvidos: plano, temperatura, topografia, espaço, proporção, etc. Como ele começou a estragar o esboço que montei, achei por bem eu continuar – meu primeiro grande erro. No final, pintei quatro sessões para ele – meu segundo grande erro. Mas algo começou a acontecer: a relação mudou, de professor virei aluno, e ele passou a reclamar: "olha, a testa é mais para lá, o olho é mais para baixo, precisa melhorar isso, etc e tal. Muito zeloso, continuou “desculpe por me intrometer, mas de topografia eu entendo, eu sou engenheiro”. E toda hora ele falava que a esposa não estava gostando, que estava diferente. Mesmo explicando que a ideia com aquela pintura era a de aprender e não fazer um quadro para colocá-lo na parede ou para agradar parente, logicamente, isso não adiantou. Virei um prestador de serviço, um agente da felicidade alheia, que tem como função satisfazer o desejo do cliente. Essa distorção toda, como não podia deixar de ser, começou a “encher os canecos”. Fiquei irritado com a situação e decidi retomar aquilo que não deveria ter abandonado desde o começo: voltar àquela condição básica do aprendizado - eu ensino e ele aprende. Decidi não terminar o quadro de aluno para ficar contente. Meu dever é ensinar a pensar o processo para executá-lo. Conclusão: disse para ele juntar os conceitos técnicos mais “o seu olho de topógrafo” e pintar sozinho na última sessão. O resultado é que só conseguiu pintar o fundo e o pescoço. Colocou um fundo “verde-banana” claro (verde veronese + amarelo + branco com valor médio alto, no linguajar técnico) e com isso, a pele da sua netinha ficou escura. A culpa logicamente do seu ponto de vista, foi minha, pois segundo suas palavras “você a pintou como mulata, sendo que ela era branquinha”. Disse-lhe que o erro foi ter colocado uma complementar indireta num tom muito claro. Mas não adiantou, o erro foi meu. No fundo, ele teve razão. Nunca devia ter abandonado o meu propósito como professor, entrando naquele esquema do professor que “finge que ensina” e do aluno que “finge que aprende”, no qual todos saem felizes e saltitantes. Moral da história: “nunca mais ensinar um engenheiro a pintar a neta” (brincadeira!). Isso me serviu de modelo para nunca mais abandonar aquilo em que acredito, não me deixar levar ou sair do meu caminho. Mais tarde, acabei caindo mais umas cinco vezes na mesma armadilha, mas hoje acho que aprendi a lição.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Hachura 2

Outra função da hachura, além de ajustar o valor, muito usada na abordagem gráfica, é gerar textura (neste caso, dos pêlos). Uma preocupação constante aqui foi de mantê-la sempre com função: tanto de manipular a direção da leitura como de seguir o plano.

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