quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Em nome da arte

Certa vez, veio um amigo da época das exposições de cães visitar o meu ateliê. Havia uma mesa de pimbolim e enquanto jogávamos, percebi que tinha um nariz longo e bem marcado. Perguntei se não tinha interesse de fazer uma máscara do seu rosto para servir de modelo para desenhar.
“Tudo bem”, sem qualquer tipo de hesitação.
“Beleza!” – dificilmente alguém aceitava assim tão prontamente.
O detalhe na época é que não tinha muita experiência (e continuo não tendo) com o gesso e quando ele me perguntou se seu cavanhaque, cultivado por meses, corria perigo, respondi que não, bastava aplicar vaselina nos fios que nada aconteceria. O problema é que eu estava errado. Apliquei uma camada bem espessa de gesso diretamente sobre o seu rosto, deixando um orifício na região da boca para poder respirar com um canudo. Para quem não sabe, o gesso esquenta razoavelmente enquanto seca como uma reação química que não sei explicar.
“Pô, bicho, isso esquenta!”.
“Calma, que já está secando. Mas não fica falando que senão deforma o molde”. Quando o molde secou, resolvi tirar a máscara e ela não vinha. "Putz", pensei, "tem alguma coisa errada" e comecei a suar frio. Resolvi puxar com mais força. Foi quando ele começou a gritar: “Ai, ai! Vai devagar”. Os pelos do queixo e do bigode estavam todos colados ao gesso.
“O que está acontecendo?” – perguntou-me.
Tentei fingir uma calma que não existia – “não foi nada, os pelos parecem que estão um pouco presos”.
“Pô, cara!” – respondeu triste.
Bom, antes deprimido do que desesperado, pensei. Peguei o formão e um martelo e comecei a bater no centro da máscara devagar e nada. Aumentei a força, até que tomado pela angústia comecei a descer a mão com mais vigor. Nunca vou esquecer essa frase dele que fez mudar o rumo das coisas: “Ai, ai, ai, ai! Pô cara, não esquece que tem um ser humano aqui!!!”
Parei para pensar mais um pouco, porque desse jeito não estava funcionando. Tentei quebrar as bordas do gesso com alicate, mas estava muito duro. Até que tive a idéia de pegar uma tesoura de ponta bem fina. Estiquei a máscara para frente, os pelos ficavam bem esticados e fui cortando.
“Ai, ai! Isso dói”.
“Fica quieto, senão não dá para cortar!”
Depois de meia hora de trabalho árduo, consegui finalmente retirar a máscara e todos os fios se encontravam no fundo dela. A aparência do meu amigo não estava muito boa: era um ex-cavanhaque cheio de falhas e com vários pontinhos vermelhos de sangue. É que, como ninguém é perfeito, acabei cortando um pouco de sua pele.
“Pô, cara, o que você fez comigo?! Você tem uma lâmina de barbear?" - foi o que disse quando se viu no espelho.
A minha sorte é que ele era muito tranquilo e quando lhe perguntei se queria retomar o pimbolim, aceitou sem pestanejar (se fosse comigo, já teria ido embora) e continuamos a jogar como se nada tivesse acontecido.

4 comentários:

  1. hahaha
    Apesar de dramática, não pude deixar de dar risada dessa história!
    Espero que o molde do nariz tenha funcionado, afinal;

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  2. Quando o meu amigo me perguntou se o molde ficou bom, logicamente disse que sim, mas na verdade ficou todo deformado, porque como disse, ele ficou reclamando o tempo todo. Ou seja, a culpa foi dele. Brincadeira! Que ele não leia esse comentário algum dia.

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  3. hahahahahahha hahahahahahahah hahahahahaha

    Maurício.. Eu queria muito escrever um comentario decente... Mas eu nao consigo parar de rir...

    hahahahahahaha ahahahahhaa

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  4. O que hoje é engraçado foi desesperador na época e tudo aconteceu em nome da arte...

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