quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Porque a gente aprende com a experiência...

Essa história peguei de uma anotação minha de 2000, quando ainda estava desenvolvendo uma metodologia para as aulas. O caso desse aluno foi assim: um senhor espanhol queria fazer um retrato da neta, mas sem a intenção primeira de aprender. Queria agradar a esposa e a neta. Acreditava no milagre de, sem saber desenho, conseguir pintar um quadro. Vi que ele não tinha base alguma e comecei a primeira aula explicando a estrutura do desenho e da camada básica de cor e valor. Expliquei os conceitos técnicos envolvidos: plano, temperatura, topografia, espaço, proporção, etc. Como ele começou a estragar o esboço que montei, achei por bem eu continuar – meu primeiro grande erro. No final, pintei quatro sessões para ele – meu segundo grande erro. Mas algo começou a acontecer: a relação mudou, de professor virei aluno, e ele passou a reclamar: "olha, a testa é mais para lá, o olho é mais para baixo, precisa melhorar isso, etc e tal. Muito zeloso, continuou “desculpe por me intrometer, mas de topografia eu entendo, eu sou engenheiro”. E toda hora ele falava que a esposa não estava gostando, que estava diferente. Mesmo explicando que a ideia com aquela pintura era a de aprender e não fazer um quadro para colocá-lo na parede ou para agradar parente, logicamente, isso não adiantou. Virei um prestador de serviço, um agente da felicidade alheia, que tem como função satisfazer o desejo do cliente. Essa distorção toda, como não podia deixar de ser, começou a “encher os canecos”. Fiquei irritado com a situação e decidi retomar aquilo que não deveria ter abandonado desde o começo: voltar àquela condição básica do aprendizado - eu ensino e ele aprende. Decidi não terminar o quadro de aluno para ficar contente. Meu dever é ensinar a pensar o processo para executá-lo. Conclusão: disse para ele juntar os conceitos técnicos mais “o seu olho de topógrafo” e pintar sozinho na última sessão. O resultado é que só conseguiu pintar o fundo e o pescoço. Colocou um fundo “verde-banana” claro (verde veronese + amarelo + branco com valor médio alto, no linguajar técnico) e com isso, a pele da sua netinha ficou escura. A culpa logicamente do seu ponto de vista, foi minha, pois segundo suas palavras “você a pintou como mulata, sendo que ela era branquinha”. Disse-lhe que o erro foi ter colocado uma complementar indireta num tom muito claro. Mas não adiantou, o erro foi meu. No fundo, ele teve razão. Nunca devia ter abandonado o meu propósito como professor, entrando naquele esquema do professor que “finge que ensina” e do aluno que “finge que aprende”, no qual todos saem felizes e saltitantes. Moral da história: “nunca mais ensinar um engenheiro a pintar a neta” (brincadeira!). Isso me serviu de modelo para nunca mais abandonar aquilo em que acredito, não me deixar levar ou sair do meu caminho. Mais tarde, acabei caindo mais umas cinco vezes na mesma armadilha, mas hoje acho que aprendi a lição.

5 comentários:

  1. Fala maurício,
    É sempre muito bom vir aqui no seu blog, a cada post uma grande lição,....imagino que seja muito dificil controlar a ansiedade de um aluno iniciante...confesso que aprendi, ou pelo menos melhorei bastante, a controlar a minha quando frequentei o atelier, ainda que por pouco tempo...
    Abraço,
    Leonardo

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  2. Oi Leonardo,
    vou falar sobre ansiedade, que é um assunto interessante e muito presente nas aulas.
    Abs.

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  3. Será que não cai mesmo? Que tal ensinar uma "matemática" pintar a netinha? Brincadeirinha rsrsrs
    é para adivinhar quem enviou

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  4. Ops, me esqueci que assino antes de enviar. Mas vc ja tinha adivinhado, não é?

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  5. Vai ser difícil vacina contra duas professoras (da mesma turma) pintando as netinhas, né?

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