segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

"A ditadura do relativismo existe?", por Gilberto de Mello Kujawski

Joseph Ratzinger, ainda cardeal, defende a fé católica contra o que chama a “ditadura do relativismo”, exemplificada no marxismo e no liberalismo de livre mercado, no libertarismo, no coletivismo, no ateísmo, na religiosidade vaga, no agnosticismo e no sincretismo. O ilustre historiador Boris Fausto, em artigo na Folha de S. Paulo, contesta a posição de Ratzinger, negando a ameaça de uma ditadura do relativismo: “Na verdade, dentre as ameaças que rondam o mundo atual não se encontra a chamada ‘ditadura do relativismo’.
Encontram-se, sim, as visões fundamentalistas, de métodos e matizes variados, mas com alguns traços essenciais comuns” (A ditadura do relativismo, 12/5). Exemplifica com o “fundamentalismo religioso americano” e o “fundamentalismo islâmico”.
Ora, não é preciso ser sábio para perceber que o fundamentalismo a que se refere o prestigiado professor não passa da reação ao relativismo imperante na História contemporânea, acusado naquelas opções mencionadas pelo então cardeal Ratzinger, o marxismo, o liberalismo de livre mercado (porque há outro liberalismo que não é o de livre mercado), o libertarismo, o coletivismo, as religiões vagas, o sincretismo, etc.
São esses fenômenos que formam o clima cultural em que respiramos e vivemos, em período de tremenda instabilidade de todos os paradigmas, em crise inegável desde o século anterior. Fundamentalismos não passam de reações desastradas à unanimidade do relativismo, cada vez mais generalizado e consolidado. Interessante a distinção entre pluralismo e relativismo, devida a Isaiah Berlin, lembrada no artigo por Fausto.
Em resumo, o pluralismo admite, com direitos iguais, distintas visões da realidade, diferentes formas de pensar, crer, avaliar, viver e agir, todas elas igualmente legítimas. A nosso ver, a diferença, em contraposição ao relativismo, é que o pluralismo argumenta com idéias, crenças e valores inteiros, completos, tomados em sua integridade, ao passo que o relativismo se contenta com visões fragmentárias, meias-verdades, meios-valores, meias-crenças, etc.
Em outras palavras, o pluralismo é uma atitude generosa e tolerante que admite a multiplicidade do real e dos caminhos para chegar a ele por meio das crenças ou das idéias. O relativismo, diversamente, representa o ponto final do ceticismo e do niilismo, essa posição que “considera que as crenças e os valores tradicionais são infundados e que não há qualquer sentido ou utilidade na existência”
Bento XVI não é nem poderia ser antipluralista. Ele prossegue na linha do Concílio Vaticano II, que abraça o ecumenismo religioso, o qual pressupõe o maior respeito às mais diferentes confissões.
A expressão mais completa e acabada do relativismo em nossos dias, sua versão oficial, está no pós-moderno. Em sua investida contra as utopias do iluminismo (razão, ciência, progresso), o pós-modernismo renega todas as utopias sem as quais a cultura não existe: o universal, a totalidade, a verdade, a nação, o Estado, a História e as metas da História.
Joga fora a criança junto com a água do banho. As utopias do iluminismo, na medida em que podem e devem ser superadas, também devem ser virtualmente conservadas. Não se pode condenar o homem a recomeçar sempre do zero.
A noção forte do pós-modernismo é a fragmentariedade, assim como no modernismo era a noção de totalidade. Na visão fragmentária do mundo estão contidas todas as demais categorias do pós-moderno: a anarquia, a dispersão, a indeterminação, a antiforma, a antinarrativa, o inacabamento, a metonímia, a mutação, a esquizofrenia, etc., conforme a tabela comparativa entre modernismo e pós-modernismo elaborada por Hassan (1985).
O fotógrafo “moderno”, ao focalizar uma cidade histórica, Veneza, por exemplo, fixa os grandes conjuntos, como a Praça S. Marcos, a catedral, os canais e as pontes, os velhos edifícios, etc.
O fotógrafo “pós-moderno”, ao contrário, toma somente flashes parciais da cidade e de seu movimento, detalhes nem sempre significativos, não a catedral, mas o rosto pela metade de um turista, não a estátua inteira, mas um detalhe de seus pés, por exemplo, organizando um mosaico estilhaçado do tema, numa visão não integrada, uma mixagem de sintaxe duvidosa.
Ao que parece, o pós-modernismo resulta do excesso de informação que congestiona hoje o conhecimento, corrompendo a integridade do sentido, subvertendo as visões totalizantes, panorâmicas, à distância, pelo registro míope, destorcido e anárquico das coisas.
O excesso de informação, implicando informações contraditórias, dá lugar ao relativismo e suas meias-verdades, meias-visões e meios-valores. Passam-se a admitir direitos iguais, igualmente legítimos, para uma frase de rock e uma ária de Bach, uma página de Shakespeare e uma história em quadrinhos, a missa solene na catedral e o culto do bispo Edir Macedo.
Pois tudo é, mesmo, muito relativo. Estabelece-se o jogo do vale-tudo, que resulta no vale-nada, na soma zero da cultura.
Conclusão inesperada: o pós-moderno deve ser rejeitado em bloco? Será que nele nada se salva? Seu destino inevitável será a lata de lixo? Não é o que pensamos. Uma coisa é o pós-modernismo como doutrina, como tese em polêmica com o modernismo, e outra coisa é sua execução.
Nesta deparamos com achados extraordinários, na fotografia, na pintura, na arquitetura, no cinema, na literatura. Lances pós-modernos constam em autores como Fernando Pessoa, J. L. Borges, Ezra Pound, Carlos Drummond de Andrade e muitos outros.
Certos aspectos mais rígidos e calcificados da cultura iluminista podem receber a oxigenação e a revitalização do pós-moderno. O pós-moderno, expurgado da doença senil do relativismo e do excesso de doutrina, em pequenas doses, pode agir à semelhança das vitaminas no organismo combalido da cultura. Tudo é questão de dose.
O ideal seria combinar o moderno com o pós-moderno. Pois é possível conceber uma grande narrativa feita de pequenas histórias. Não é o caso do próprio Homero?

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