sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Retrato em movimento...


Estrutura montada em pastel preto, branco e cinzas, 2013.
 
Influenciado, talvez, pelo episódio que Rodin viveu ao retratar Victor Hugo na modelagem (http://mauriciotakiguthi.blogspot.com.br/2009/01/ao-fazer-o-desenho-deste-busto-de.html), resolvi entrar, por curiosidade, numa situação análoga, montando a estrutura do desenho e das massas, fazendo um retrato de uma figura em movimento (sem o acabamento), por meio de registros sempre provisórios das informações visuais. Escolhi para esse experimento um aluno bem irrequieto, chamado Misael...
A primeira estratégia foi fazer o gestual para atingir o todo, definindo a direção.
O segundo passo consistiu em fazer anotações das proporções, ajustadas constantemente por sobreposição (portanto, não pré-definidas), tanto da estrutura do desenho como das massas. Foram marcadas momento a momento, gradativamente, baseadas exclusivamente numa abordagem intuitiva – e não na medição.
Procurei trabalhar o tempo por sensação, evitando aquelas tendências mais comuns: fixar alguma referência quando ele se encontrava na pose que marcara previamente como primeira camada e, também, buscar os traços mais característicos para garantir o êxito, representado pela semelhança fisionômica.
A solução que foi se configurando durante o processo foi a visualização de “shapes” (abstração das formas tridimensionais baseadas nos planos ou volumes da cabeça traduzidas para formas bidimensionais) e acompanhar seu movimento no espaço tridimensional. Gravava mentalmente por sensação o shape em perspectiva e anotava no papel.
 
Representar a incidência da luz foi outro grande empecilho. A iluminação, difusa e oriunda de cima, aliada à movimentação contínua do nosso modelo, fez com que ficasse bem difícil compreender o comportamento dos planos da cabeça na penumbra em relação à luz.
Sinceramente, achava no meu íntimo que não conseguiria implementar tal tarefa. Contudo, muito mais importante que provar para mim mesmo que conseguiria ou não foi guiar-me pela curiosidade de ir mais a fundo no desvendamento de uma nova possibilidade, no âmbito da concepção visual.
Essa experiência tornou-se extremamente gratificante por desembocar num novo tipo de conhecimento voltado para a prática. Fez-me entender ainda mais a importância do exercício mental de abstração (decodificação), acompanhando visualmente a mudança de perspectiva do shape o tempo todo, e da memória visual , crucial para executar os registros no papel.






Pela sequência das imagens é possível constatar o tamanho da “encrenca”: o tempo todo o modelo não “cooperava” (brincadeira, Misael!), mexendo o eixo, a rotação, o nível (em termos de altura) da cabeça, que teve também por sua vez consequências nas marcações das massas.
 
 

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