quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Rodin



Ao fazer o desenho deste busto de Victor Hugo, executado por Auguste Rodin, lembrei-me de um episódio curioso do livro A Arte: conversas com Paul Gsell (Editora Nova Fronteira). Rodin queria fazer um busto do escritor, mas este se recusara a posar em função de uma experiência traumática: o escultor anterior chamado Villain levara 38 sessões para fazer um péssimo trabalho. Para implementar o retrato, teria de virar-se sem que Hugo posasse. Num primeiro momento, Rodin desenhou vários esboços, depois começou a trabalhar numa mesa giratória do lado de fora, na varanda. Como o escritor recebia várias visitas, Rodin teve de contentar-se em memorizar o que via para modelar o barro. Conta que, ao chegar lá, a imagem mental se dissipava, perdendo a coragem de dar um só golpe com o cinzel. Achei a história reveladora porque, muitas vezes, ao ver a obra pronta (em que não transparece as dificuldades e entraves), não temos acesso aos bastidores do processo. Justamente por isso, a tendência é a de cultivarmos a fantasia de que a “genialidade” nasce da facilidade, da inspiração divina e que o tal do “dom” substitui magicamente o esforço, a disciplina, o pensamento. Este exemplo mostra que, por mais que se domine a técnica e os conceitos de design, ainda há um humano por trás da obra e os dados de realidade continuam complexos e imponderáveis. Este é o desafio, tanto para o mestre como para o aprendiz.

Um comentário:

  1. Belíssimo comentário, Takiguthi! Até alguns anos atrás, eu achava que era preciso nascer com "dom" para se tornar um grande artista. Claro que há pessoas que tem uma maior facilidade natural para o desenho (ou matemática, canto, expressão corporal etc.). Mas como você mesmo diz, nada substitui o esforço, a disciplina, o pensamento, o conhecimento técnico. E viva o desafio!

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