quarta-feira, 4 de junho de 2014

"O resgate dos valores humanos", entrevista concedida a Mazé Leite publicada pela Revista Princípios

Maurício Takiguthi inaugurou o Ateliê e Galeria Contraponto em São Paulo, em março passado, com uma exposição de seus trabalhos de pintura mais recentes. Extremamente dedicado a seu ofício, Takiguthi impressiona não só pela qualidade de sua obra, mas também pela profundidade de seu pensamento. Conversar com ele é um exercício que sempre desafia os mais desatentos a um esforço de concentração um pouco maior do que se precisa para desencadear um diálogo comum. Porque ele “pensa” seu trabalho. 

Mais uma vez entrevistei esse pintor que tem uma escola aqui em São Paulo, o Ateliê de Arte Realista. Há dez anos atrás, Maurício Takiguthi estava quase sozinho em sua teimosia de ensinar as técnicas da arte figurativa. Dez anos depois já podemos contar com pelo menos meia dúzia de ateliês figurativos em São Paulo, com dezenas de praticantes, entre estudantes e artistas. O mais recentes destes ateliês que por aqui surgiram é o Ateliê Contraponto, do qual faço parte com mais três colegas.

Mas voltemos à nossa conversa com Takiguthi, que tanto insiste no resgate do conhecimento e da tradição, na busca do auto-aperfeiçoamento do artista como um caminho solitário mas comprometido com o que há de mais profundo no conhecimento do próprio ofício. Tudo isto, diz ele, para resgatar valores mais humanistas.

Maurício diz que desde que começou sua formação e seu trabalho como pintor, há uns 28 anos, ainda se mantém basicamente como a mesma pessoa que se coloca diante do mundo como aprendiz: vivendo “cheio de dúvidas, questões, e instigado pela curiosidade de querer entender o que os mestres viam”. Mas acrescenta que não há como medir a plausibilidade deste tipo de desejo, desta ambição. Nunca podemos saber aonde nossos desejos nos levam, mas serve como um motor que nos move e que move o pintor Maurício Takiguthi até hoje “depois de 28 anos de estrada”.

“Continuo insistindo em obter respostas, acrescenta ele. Porque continuo frustrado boa parte do tempo por não tê-las. Porque continuo ‘apanhando’ e, mais importante, porque continuo sentindo tesão pelo realismo que me instiga na esperança de um dia ter acesso”.

Ter acesso ao que?
Aqui podemos buscar apoio no pensamento do filósofo alemão Friedrich Wilhelm von Schelling (1775-1854), que em seu texto “A relação das artes plásticas com a natureza” mostra como o olhar do artista, penetrando no Real, enxerga o mundo através da sua essência, que é acessível ao nosso espírito (mente). E Schelling adverte que aquele que apenas enxerga do mundo a sua casca, a sua superfície, a ele “jamais será facultado atingir o processo profundo”. Enquanto que para o artista que tem consciência de si e de seu papel, sabe o caminho para desvendar as aparências que muitas vezes a realidade toma. Diz Schelling: “Antes de mais nada, a natureza vem ao nosso encontro de modo hermético e sob uma forma mais ou menos rígida. Assemelha-se à beleza sóbria e serena que não chama a atenção por meio de sinais gritantes e nem atrai o olhar vulgar. Como podemos fundir, digamos, do ponto de vista espiritual, aquela forma aparentemente rígida a fim de que a força mais clamorosa das coisas flua juntamente com a força de nosso espírito, transformando-as num só molde? Temos que ultrapassar a forma, para, aí então, readquiri-la como algo inteligível, vívido e verdadeiramente sentido.” (grifo meu)

Todos os grandes artistas, desde os da pintura, passando pela literatura, pelo teatro e pela música alcançaram o cerne, a essência do mundo, criando obras seminais que se sobrepõem à nossa concepção de tempo; obras que emocionam pessoas que estão separadas de seus criadores por séculos de distância, que permanecem encantando, gerando pensamentos, inspirando.

E intrigando. Qual é o processo profundo, qual é o caminho que nos leva a este mergulho do qual retornamos como criadores?

Não é uma resposta fácil. Mas um caminho possível é o exercício do ofício ao qual cada um se propôs e é isso o que diariamente Takiguthi ensina a seus alunos. Por sua origem japonesa, ele se reporta muitas vezes aos ensinamentos zen-budistas que dizem que “a prática é que é expressiva”.

“Desse ponto de vista, diz ele, somos algo a partir do que fazemos e não do que dizemos ou acreditamos”. Por isso fica difícil criar qualquer adjetivo que qualifique o sujeito, pois no momento em que uma pessoa se dá uma denominação, por exemplo se chama a si próprio de “artista”, isso cria, segundo Maurício, uma predisposição a que “as palavras comecem a substituir ilusoriamente o que fazemos, obscurecendo a realidade dos fatos e a visão sobre nós mesmos”.

Ou seja: a ideia é fazer ao contrário do que se faz atualmente, onde o poder do discurso é imenso, mas a prática é subestimada. Nas artes contemporâneas, antes da obra há uma retórica altamente hermética sobre ela, o discurso substituindo a coisa concreta. Se sobrepõe o mundo do idealismo mental contra o contato direto com a realidade. O ofício do artista acontecendo prioritariamente no mundo da mente, gerando nebulosidades que, como bem diz o poeta Affonso Romano de Sant’Anna, fazem com que as artes visuais atuais possam melhor ser interpretadas do ponto de vista da psicanálise.

Mas a prática concreta é mais enfática do que qualquer discurso. “Faz sentido, acrescenta Maurício, pois “se somos honestos é porque praticamos atos honestos e não simplesmente porque dizemos aos outros ou temos essa ideia sobre nós mesmos... E em geral a pessoa que se preocupa demais em se autodefinir ou falar de suas qualidades pessoais é que provavelmente está mais ocupada em convencer-se ou convencer ao outro – pela retórica, e não por atos concretos. Pode servir como marketing pessoal, mas não como autoaperfeiçoamento”.

Por isso a “leitura da ação” diz mais do que a definição verbal.
Neste ponto, pergunto a Takiguthi a respeito da temática de sua pintura atual. As figuras que ele pinta são fortes, parecem habitar um lugar entre a vida e a morte, com gestos dramáticos, olhares densos; figuras que parecem nos apontar nossos próprios medos, nos defrontando incomodamente. Ao mesmo tempo, os traços são fluidos, gestuais, gerando movimentos em ondas que parecem todo o tempo nos levar para dentro dos abismos dessas figuras.

“Diferentemente do que se associa a um realista, eu procuro não ficar na mera imitação da natureza ou atingir qualidades ‘fotográficas’. Não sou adepto da ideia de que o melhor propósito de uma pintura é de parecer com uma fotografia. Quero registrar na tela a minha percepção interna da natureza humana ou, mais relevante para mim, conseguir visualizar minha realidade interior. Muito disso se passa pelo diálogo silencioso com o que faço: a partir da imersão no processo que nem sempre é fácil, dadas as grandes distrações da vida numa metrópole, procuro me debruçar sobre questões intrínsecas da pintura e do desenho.”

Os fundamentos conceituais, os instrumentos técnicos, a prática e a estrutura mental se fundem e combinam num todo complexo e se tornam elementos com os quais ele trabalha para recriar o que ele chama de “etéreo”, que evidencie um certo estado de espírito, ou sensação. “Talvez este seja o resumo do tema da minha vida como pintor: ter a ambição impossível de traduzir essa qualidade invisível por meio de asserções visuais no campo do indizível”.

Ou seja, Takiguthi parece buscar expressar aquele lugar onde o reino das palavras não existe. Resta a sensação, a contemplação, a absorção da alma do artista em contato com a alma do observador, criando um uníssono impossível de traduzir em palavras, porque faz parte daquele espaço onde navega toda a subjetividade humana. Este também é o papel da arte: produzir essa conexão entre o Real e o artista que traduz pictoricamente o que vivenciou, alcançando um timbre possível de ser compreendido por outro ser humano.

 - Que relação há entre o que você pinta hoje e o tempo contemporâneo, Maurício? Pergunto a ele. “Se está falando do tempo contemporâneo enquanto relação entre a postura tradicional e o status quo com sua lógica pós-moderna, que tem a arte como entretenimento, barulho, escândalo ou transgressão... nenhuma!” diz ele. Maurício Takiguthi insiste em se voltar para a arte tradicional que para ele é sinônimo de conhecimento, do caminho solitário do mestre em busca da construção, do sentido dos valores permanentes do ser humano, do resgate da contemplação da arte, da observação seletiva baseada em critérios. Daí sua crítica de que hoje não há espaço para isso, em especial aqui no Brasil.

Takiguthi explica que o tempo contemporâneo impõe um fluxo interminável de informações, de imediatismo pragmático que força as pessoas a produzir “num ritmo ansioso e alucinado” do qual é difícil escapar. “O que pode ser feito é minimizar seus efeitos pela consciência dessa forte influência quase arrasadora, dada a impossibilidade de o indivíduo simplesmente descolar-se social e culturalmente dessas imposições”, acrescenta.
Mas diz também que a pintura pode desempenhar esse papel que ele chama de “campo de respiro” em outro tipo de ar. “Não o ar viciado e barulhento que exige aceitação acéfala das regras, mas um ar onde o tempo transcorre de maneira diferente, mais desacelerada. Onde o ar, ao invés de ser estritamente racional, calculista, mecânico, previsível, vinculado fortemente às demandas da utilidade, pode assumir uma dimensão intuitiva, voltada para a introspecção e contemplação das coisas visíveis e invisíveis”.

Ele afirma que essa mudança de perspectiva na relação com o tempo e “o deslocamento para estados mentais mais sensoriais”, apazigua o espírito, amplia a sensibilidade. É uma proposta a uma resistência ao modus operandi exigido pela sociedade atual, que exige do ser humano coisas além da sua capacidade, física e mental. Me pergunto se não seria por isso que hoje temos uma sociedade onde se usa tanto remédio para depressão e se faz uso de tantos narcóticos? Esse deslocamento da prioridade aos valores humanos em prol da produção e do consumo não está criando uma sociedade doente, com indivíduos massacrados diariamente em busca da sobrevivência? O esvaziamento de símbolos universais, o corte radical com a tradição histórica perpetrado inclusive por artistas ditos modernos e contemporâneos não estaria nos distanciando cada vez mais de nós mesmos, dos nossos sonhos, da nossa capacidade de criadores do mundo?

Talvez isso dependa da busca novamente do que é essencial, do que não é óbvio atualmente, “das qualidades perenes, universais, que demandam tempo e maturidade para poder visualizar e compreender”, complementa Maurício.

Neste ponto da conversa, relembro um diálogo que aconteceu entre nós e outros amigos, num sábado à noite no Ateliê Contraponto, quando Maurício disse que está abdicando da possibilidade de ser chamado de “artista”. Aquilo me interessou e logo quis saber o motivo. Takiguthi respondeu:

- “Já faz um tempo que venho constatando a existência de um patrulhamento ideológico, forte mas implícito, em torno das exigências para que uma pessoa seja considerada um artista: que deva estar “antenada” na busca pela próxima tendência (como na moda) - perdendo, assim, a conexão com sua busca interna; que deva ignorar as habilidades do seu campo de atuação (que significa conhecimento prático e técnico); que faça prevalecer a habilidade retórica de convencer o outro de que o que faz é arte, em detrimento do conhecimento em profundidade que lhe permita pensar o que faz ou fazer o que pensa; entre outras. Este patrulhamento serve fundamentalmente para tornar oficial o monopólio da verdade e manter a posse da “aura” artística, tão importante numa sociedade sufocadamente racional”.

Hoje qualquer um pode, ou quer, se dizer “artista”. Mas raríssimos são aqueles que preferem praticar seu ofício, no suor do dia a dia sobre a mesa de desenho, frente ao cavalete, questionando, buscando aprender cada vez mais, se aperfeiçoando como o Demiurgo de Platão, o Grande Artesão, cujo próprio significado está naquele que trabalha, no artífice, no operário manual. Demiurgo, palavra grega que vem de duas outras: demios, significando “o povo” e ourgos, que significa “trabalhador”, aquele que trabalha para que outros aproveitem do produto do seu trabalho em muitas formas.

Fernanda Montenegro, a conhecida atriz brasileira, numa entrevista recente a um canal de televisão ilustrou bem o que o Maurício fala sobre a prática do “ofício”. Disse ela que as pessoas “confundem teatro com liberdades, até com licenciosidades, com realização de sua opção sexual, com glórias, paetês, retrato no jornal, riqueza…” Hoje em dia a deformação já surge, diz ela, nas famosas “celebridades”. E completa: “Todo mundo vira artista hoje em dia, todo mundo pode ser artista… Mas ator não é todo mundo que pode ser!” Ela sugere aos que desejam a glória de ser ator, que desistam, que vão fazer outra coisa da vida. A não ser que se “ficar em tal desassossego que não tem nem como dormir se ficar sem aquilo” então deve tentar. Mas se não houver esse distanciamento em relação ao deslumbramento que hoje a palavra “artista” causa em qualquer um, ela simplesmente solta: “Não é do ramo!”

Pois os que são do “ramo” conhecem a delícia e a dor da prática diária, silenciosa, profunda do ofício. Os que são do “ramo” não projetam nada no futuro, se dispõem unicamente ao aperfeiçoamento de si mesmos como artesãos, seja no teatro, na literatura, na música… e na pintura.

Mas o problema é que o artista de hoje aceita, acrescenta Takiguthi. “Apesar de aparentemente pregar a transgressão como estilo de vida, está mais desesperado em se enquadrar e ser cooptado pelo sistema. Sob a lógica atual, faz de tudo para chocar/entreter o espectador para poder existir artisticamente. Cultua o ego ao tentar virar celebridade, abre mão do comprometimento sincero com a obra, para transformá-la numa extensão do próprio umbigo e vitrine de si mesmo. Defende verborragicamente a todo custo a auto-imagem que cria de si como artista/celebridade, por uma via afetada, ególatra e arrogante. Caça desesperada e exclusivamente a fama, a reputação e os interesses mercadológicos. O seu foco concentra-se nos aspectos extrínsecos à sua prática e, certamente, quer ser maior do que faz.”

Foi num dia em que refletia sobre isso que Maurício Takiguthi se viu “esgotado” com esse estado de coisas. Ao ver como a palavra “Arte” se encontra atualmente tão contaminada - assim como outras palavras - é que ele recorreu a uma frase de uma música de Raul Seixas e decretou para si mesmo: “Pára este mundo que eu quero descer!

 Com isto, ele disse que prefere simplesmente seguir outro caminho aonde possa se manter fiel ao ofício do pintor e desenhista realista. Isto como reação contra a busca do reconhecimento, da autorização “do outro” para o que faz, “autorização” dada hoje somente por instituições artísticas, legitimadores da arte como críticos, curadores e senhores do mercado de arte. Ele prefere exercer seu ofício solitário “com simplicidade, leveza, serenidade e liberdade, sem idealizações ou ideologias descartáveis”.

Essa busca, esse retorno à ideia de “ofício” para Maurício Takiguthi é a reafirmação do compromisso harmonioso e silencioso com o processo do trabalho. E complementa:

 - “É materializar uma inversão radical nos valores: no lugar da “aura”, a realidade concreta do cotidiano; no lugar do glamour, o trabalho árduo; no lugar da retórica, a sinceridade e a sensibilidade para algo existente. Enfim, é só isso que eu desejo ardentemente hoje em dia: quero respeitar meu ofício, reverenciar a prática, dedicar toda a atenção e energia aos seus elementos intrínsecos para compreender a sua essência, sob o rigor da excelência”.

Voltando-se para seu ofício, o artesão escuta, vê melhor o que faz e o que vê. Estabelece “uma interação sensível com um mundo complexo e infinito, onde pequenas revelações e insights cotidianos fazem muito sentido”, finaliza ele.

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