domingo, 25 de agosto de 2013

Grupo Realista de Estudos: "Seminário e Palestra Sobre as Obras de Lucian Freud" - 2a. parte


 

O propósito da segunda parte do Seminário foi exercitar o "olhar de pintor", fazendo uma incursão no pensamento visual de Freud pela visualização das questões que foram se impondo ao longo de sua existência artística.
A metodologia partiu da leitura analítica dos elementos intrínsecos à sua obra, eliminando, dessa forma, os julgamentos de valor típicos do senso comum, clichês ou discursos de viés ideológicos muito questionáveis.
 


 
Box of Apples in Wales (1939 - 17 anos)
 

 Woman with Reflected Suitors (1939 - 17 anos)
 
 
 Evacuee Boy (1942 - 19 anos)
 
A parte curiosa nesta fase inicial de Freud foi a constatação da grande dificuldade que tinha, mesmo para um jovem adulto, tanto de representação no desenho, racional simbólico, como de visualização de problemas de natureza conceitual técnica, visível principalmente pelo uso de cor suja, ruído visual provocado pelo excesso de pinceladas dadas a esmo, pastosidade sem função, massas e famílias de cor desorganizadas.
Seu mérito foi exatamente ter transformado estas dificuldades, que não eram pequenas ou poucas, em pontos de partida para a ação.
 
 

 
Girl with Roses (1947/8 - 25/6 anos)

E o primeiro ponto focado sabiamente pelo artista para ser resolvido foi o desenho, subentendido como representação da forma. 
Ao escolher uma abordagem tipicamente linear, caracterizada pela ênfase predominante dos detalhes, da descrição táctil da forma e do modelado plástico, abandona aquele ímpeto inicial pela grande pastosidade e pela soltura,  esta última associada à ideia de falta de lastro técnico.
Faz uso basicamente dos elementos do sistema indireto de pintura: esquema de esfumato com pincel de marta  (o que faz perder a leitura da pincelada), de veladuras e baixo grau de pastosidade da tinta.

 
John Minton (1952 - 30 anos)
 
 
 Girl Reading (1952 - 30 anos)
 
Conseguindo controlar melhor o caráter sólido da figura, resolve gradativamente aumentar a saturação das cores de suas pinturas. Mas é possível constatar uma certa dificuldade ainda com a manipulação da temperatura, gerando por vezes cores sujas.
 
 
Girl in Bed (1952 - 30 anos) 
 

 
A mudança radical de Freud em torno da linguagem linear se deu a partir de um episódio bastante curioso. Em geral, refratário às críticas, ficou revoltado ao ter sua técnica do desenho e da pintura associada à dos mestres alemães (provavelmente lineares). Decidiu parar porque, continuando dessa forma, a qualidade de sua obra seria definida mais pelo desenho do que pela pintura. Tomou para si, daquele momento em diante, que "criaria formas a partir da urgência da tinta, em vez de formas já prontas" (que pode ser traduzido como contorno externo a ser preenchido com cores). 
Essa transição, pela minha dedução, deve ter ocorrido na época em que ainda convivia com Francis Bacon, tanto por citá-lo como influência por sua ousadia, como pelo retrato que fez do amigo artista, no qual redefine drasticamente a abordagem sob outra concepção.
  
Francis Bacon (1956-57 - 34 anos)
 
Neste retrato, é possível constatar como inicia o trabalho com linhas genéricas e como as massas tornam-se responsáveis pela representação da forma. Outro dado curioso é o trabalho de dentro para fora (das partes para o todo) com as massas.
 
 A Young Painter (1957/8 - 35 anos)
 
Comparado com o estilo anterior, seu processo e sua pintura se tornam mais soltos. Desta vez, com lastro no estilo pictórico. Do ponto de vista técnico, procura avançar cada vez na direção de um domínio maior. Para conseguir controlar com mais facilidade a temperatura e a intensidade no sistema direto de pintura, dilui paralelamente a tinta mantendo-a bem transparente.
 
 
A Man (1965 - 43 anos)
 
Depois de anos, tendo maior controle sobre a intensidade e a temperatura, começa a aumentar gradativamente a solidez e pastosidade dos pigmentos.
 
The Painter's Mother (1972 - 40 anos)
 
 Girl's Head (1973/74 - 51 anos)
 
Várias imagens ratificam a utilização do sistema de dentro para fora (da parte para o todo) como método permanente na estruturação das massas em sua pintura.
 
Head of a Girl (1975 - 53 anos)
 
Nesta fase, é perceptível um maior ordenamento das famílias de cores com base numa paleta bem tradicional: cinzas na direção do vermelho, do amarelo e do azul, muito recorrente nos pintores de Belas Artes, como Peter Paulo Rubens (abaixo).

"Two Satyrs" - Peter Paulo Rubens (1577-1640)
 

O mesmo pode ser dito sobre o uso das cores frias nas áreas entre a sombra e a luz, como pode ser visto no "Retrato de uma menina", de Rubens.



 
 Portrait of a Young Girl" - Peter Paulo Rubens (1577-1640)
 
 
 
Reflection (1985 - 63 anos)
 
Neste autorretrato, uma das minhas pinturas favoritas, é possível perceber como atinge a plenitude das características de sua concepção visual, principalmente pelo controle daquele alto grau de pastosidade que se tornaria característica de seu repertório técnico.
  


 

Francis Wyndham (1993 - 71 anos)
 
O uso do empaste (tinta grossa) também representa outro elemento técnico tradicional das Belas Artes que tem sua origem indubitavelmente em Rembrandt. Como o mestre barroco, passou a usar o branco de chumbo, tinta mais densa e crespa que ajuda a criar uma superfície rugosa. Contudo, a função e sentido conceitual de cada pintor foi bem diferente.
 

Autorretrato - Rembrandt van Rijn (1606-1669)
 
Para o mestre do passado, a  pastosidade foi usada para representar e dar matéria à luz enquanto para Freud, o foco foi gerar matéria e textura para recriar a essência visual da carne. Outra diferença incide sobre a relação pastosidade - valor: enquanto Rembrandt associava o empaste aos tons mais altos, Freud associou predominantemente aos planos intermediários.











Ao tomar contato mais íntimo com o pensamento visual de Freud, pela contemplação e análise estrutural dos aspectos imanentes de quase 40 de suas obras, foi possível explicitar as principais questões que o moviam e constatar o peso que desempenharam a escolha, a postura e os valores verdadeiramente artísticos em sua vida.

Foram as dificuldades e falhas dos instrumentos de expressão, e não a tentativa de enquadrar-se em algum estilo ou sistema de arte, os grandes motores de sua ação na direção do ordenamento visual de suas obras. Suas deliberações foram resultantes de um grande trabalho de observação seletiva, criteriosa, lenta e muito atenta ao mais significativo na direção da manipulação da leitura. 

O estilo desenvolvido por Freud subordinou-se à lógica de seu pensamento e não, como prega o lugar comum hoje, à busca da diferenciação, que tem como característica visual o caminho fácil e superficial das estilizações ou “cacoetes visuais”(que partem da presunção de que a mera distorção é uma qualidade expressiva ou criativa em si mesma). 

Freud foi um pintor tradicional, nem um pouco ocupado em parecer “artista/celebridade”ou comprometido com a cartilha da transgressão. Longe de querer chocar ou entreter o outro, com os trejeitos excêntricos ou afetados, sua maior virtude foi ter força e convicção suficientes para sustentar sua ação, no firme compromisso com a prática sem desvios, numa época tão antifigurativa e antitradicional. 

Longe da acomodação, sem o auxilio do discurso retórico e verborrágico que jusficasse suas faltas, percorreu um longo caminho na tentativa de responder a questões concretas inerentes aos problemas de expressão. De modo bem sistemático, paciente, disciplinado e sincero diante do processo, sem as distrações da compulsão "expressiva", implementou uma sucessão de abandonos que o manteve na direção do aprendizado e aperfeiçoamento permanentes. 

Freud, ao ter afirmado que “a obra é tudo, o homem não é nada”, ou ainda que "o meu ideal de arte exige que o artista apareça nas suas obras não mais que Deus na natureza", retirou o glamour da aura artística, a dimensão ególatra e mistificada do processo, para instaurar em seu lugar uma relação direta, concreta, com a sua obra na tentativa de expressar sua grande admiração pela estranheza do real que tanto o maravilhava: “é mais que estranho. É algo extraordinário”.

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