sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Dentro dessa ideia de esculpir com a luz, discutida no post anterior, o trabalho de borda é o elemento técnico por excelência que rege a leitura tanto da pintura como também da escultura.
Borda é o limite formado pelo encontro das massas. No modelo tridimensional, em geral, é possível constatar a borda dura (mais contrastante) quando há mudança abrupta na direção do plano e borda suave quando há mudança gradual na direção do plano.
Mas existem também outras funções para o uso do trabalho de borda. Ele estabelece o ritmo e a velocidade da leitura. Quanto mais dura a borda, mais a leitura pára. Quanto mais suave, mais a leitura flui.
Os dois estudos que fiz a partir de duas esculturas (para poder aplicar posteriormente na pintura), uma de Houdon e outra de Camille Claudel, serviram para entender o uso prevalecente da borda suave como elemento que conduz a leitura num movimento mais fluente.

La Petite, Camille Claudel, lápis carvão e lápis pastel branco sobre papel marrakech


Busto de Napoleão, Houdon, lápis carvão e lápis pastel branco sobre papel marrakech

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A questão de Bernini

"Papa Inocêncio X", carvão, lápis carvão e lápis carvão branco sobre papel marrakech


Um aluno trouxe ao ateliê uma questão bem interessante, a partir do livro Escultura (de Rudolf Wittkower), que intrigava Bernini no seu trabalho de retrato em mármore. Para ele, a ausência de cor na pedra era o grande empecilho na representação fidedigna do modelo, por mais exata que fosse a transcrição dos traços fisionômicos.
A abordagem mais convencional, de descrever a forma com detalhes mais minuciosos, parecia-lhe insuficiente (para ter um exemplo, basta analisar o trabalho de seu concorrente Alessandro Algardi do mesmo tema Papa Inocêncio X). A solução, bem genial, encontrada por ele foi a de aprofundar determinadas áreas para compensar a ausência de cor; em outras palavras, compensar a ausência de cor pela ênfase na manipulação dos valores. A partir daí, passou a guiar-se pela reação dos planos do rosto à luz (representação da luz nas formas) em detrimento da estrita representação da forma.
O grande salto qualitativo dessa perspectiva na escultura pode ser vislumbrado por dois fatores: a conversão do processo prático num sistema mais abstrato e a inserção da aparência (reação do objeto à luz) na prática escultórica como referência da ação.
E algo fundamental e bastante interessante aconteceu: como na pintura, a imagem descolou-se do objeto pelo processo de ordenamento mental.
Este é mais um caso do qual podemos depreender a máxima de que, como diz Betty Edwards, no processo criativo, "tão importante quanto à resposta é a pergunta"...

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