quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Dedicatória




Dedico este blog à memória de minha mãe que nos deixou em março deste ano.
Este é o discurso de despedida que escrevi para a sua missa de 49º dia. Segundo a crença japonesa é o último dia em que o falecido permanece com seus familiares:

"Mãe, você já se foi há 46 dias e ainda sim parece, de vez em quando, surreal. Nessa fase em que passou no hospital, o tempo parou, o ar ficou estagnado, como se todas as coisas estivessem suspensas. Quebrou o movimento natural das coisas, como se a terra parasse de girar para que déssemos todo o nosso foco, energia e atenção a você num momento tão delicado.
Justo você, que nunca pediu nada para nós e não fazia a menor questão de dar trabalho aos outros. É que, generosa como é, você quis nos preparar para a sua partida, nos mobilizando durante quase três semanas, fazendo-nos amadurecer e elaborar em nossas mentes que talvez não permanecesse mais com a gente.
Estou começando a me acostumar com essa idéia, para dizer a verdade, estou começando a aceitar essa idéia, que também não é idéia, é fato. Mas também não é fato, pois permanece com a gente na forma de memória, valor, caráter, disposição diante da vida. A nossa maior herança é a constituição mental e espiritual que herdamos de você e que, com certeza, vai nos acompanhar até o fim dos nossos dias.
A nossa vida sempre é feita de etapas e agora a etapa é a vida sem a dona Cleide. Não perdemos somente o amor, a companhia e a serenidade mas também o seu aval e a sabedoria. O mundo se torna agora mais pesado e menos seguro sem você. Apesar de ficar quieta no seu canto, costurando, assistindo tv, montando seu quebra-cabeça, sua presença discreta era muito forte, fazia a casa ficar 'cheia'.
Com sua saída de cena, você nos deixa sozinhos com a tarefa de cuidar de nós mesmos e um do outro.


Se hoje é o dia de despedida, o que quero dizer a você, mãe, em nome do pai, da Cíntia, Marcos, Gui e Natália, é até logo e que te amamos muito."

5 comentários:

  1. Maurício, ela dona Cleide, e mãe nenhuma, sai de cena. Você não a vê mas fala com ela. Veja só o lindo diálogo que você acaba de fazer. Você vai continuar a sentir seu perfume, a querer falar com ela, como eu por vêzes me encontro querendo telefonar para a minha mamma (que agora deve estar tricotando com a sua). O tempo vai acalmar essa revolta que nós filhos sentimos quando perdemos a presença física da mãe, esteio e fiel da família. Parece clichet mas é a verdade: o tempo ajuda a nos fazer saber lidar com o luto. Não lute contra o luto: nós temos que vivê-lo para suportá-lo. Você conhece bem as perdas recentes por que passei. Duras. Todas são. De todos. Depois a sensação de ternura vai voltando e a revolta diminui. Aqui tens um ombro amigo, precisando, está à disposição. Só vem de banquinho pois é um pouco maior, quero dizer, mais alto. Sorria!

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  2. Marcia de Agostini5 de janeiro de 2009 14:22

    Maurício, estou emocionada e quero deixar registrado aqui, também como homenagem minha à dona Cleide. Tive a oportunidade de me contatar com ela um pouco antes de sua partida quando ela me pediu para reformar seu jardim. Quanta honra! ...e responsabilidade. No passar destes anos (que já são muitos) que frequento seu ateliê, junto à casa de seus pais, em tudo se podia sentir o "ar da dona Cleide". Um cuidado, esmero com suas plantas, sua presença silenciosa e foi buscando tudo isso que pensei em cada flor que ali coloquei. Até aquele vaso do fundo, que ela gostava muito, e que era do tempo do que moraram no interior, fiz questão de preservar e valorizar. Foi muito bom este contato, porque quando falamos das preferências, gostos por flores, plantas, chegamos muito perto da alma das pessoas. E o que vi da dona Cleide você confirmou em seu discurso: uma pessoa segura, amável, delicada e com muita sabedoria. Fico ainda mais feliz por esse seu desabafo. Senti que você tinha isso engasgado durante o decorrer do ano e só agora exterioriza, pelo menos pra nós, seus alunos e amigos. Feliz de você que pode abençoar o útero que o gerou.
    Obrigada dona Cleide.
    Marcia

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  3. Puxa, Márcia, obrigado pelo que disse. No ano passado, depois da morte da minha mãe, não houve um dia que não pensasse nela ou sentisse sua falta. Acho que foi como falou, estava realmente engasgado...

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  4. Eu busquei a foto no google da Cleide Takiguthi... foi a única foto que apareceu...
    Gui

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  5. Pode ser a única, mas que registra fielmente como ela era, principalmente num momento de tamanha felicidade.

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