domingo, 2 de setembro de 2012

Análise sobre o caso da restauração da obra de Cristo



 
Este episódio da senhora espanhola que decidiu restaurar uma pintura de Cristo do século XIX foi certamente tragicômico, e pelo que tenho acompanhado pela internet, as atitudes prevalecentes ficaram polarizadas entre pena da senhora e o escracho. Parece-me que a maior parte da discussão ficou no campo do entretenimento sem se ater aos aspectos próprios da arte e ao seu pano de fundo.
Algo que, em minha opinião, faltou foi um outro tipo de leitura, mais especifico, pertencente à perspectiva do pintor, sob os âmbitos técnico de quem executa e postural.

Um aspecto revelador e contraditório inicia-se com fato de ela ter aceitado ou ter tido a iniciativa de fazer a restauração. Nos debates sobre o fato, um dos argumentos mais ouvidos, pelo menos no ateliê, foi o de que ela sequer sabia o que estava fazendo – por ignorância ou mesmo suposta senilidade por conta da idade avançada (coisa que não conseguimos constatar ao assistir a entrevista - podemos perceber que tem muito bom raciocínio e lucidez). O problema maior não incide sobre suas faculdades mentais, mas muito mais sobre a deficiência que ela tem de se ver. Pela qualidade do que ela executou, é óbvio que não tem menor preparo conceitual-técnico ou conhecimento específico no campo da tecnologia dos materiais.

Contudo, seus argumentos para justificar a sua qualificação para ter executado a restauração encontram-se totalmente fora do contexto técnico e artístico para ficar no âmbito superficial doméstico, bem perceptível, quando diz "que sabe pintar”, “que pinta desde os cinco anos" e "que já teria vendido muitos quadros". Nenhum desses argumentos serve de critério válido para qualificar alguém em algo tão relevante e especializado.

Mas o pior fica para o fim, quando, ao invés de assumir o desastre da execução, prefere dizer que faltava terminar. Pior porque parece que ela acredita nisso ou quer acreditar nisso.

O problema de considerá-la "louca" ou "senil" é que a essência do problema fica obscurecida e restrita ao particular, ao individual e fortuito. Não vou dizer que esta senhora não estava no lugar errado na hora errada e que o que fez só ganhou magnitude em função da internet. Contudo, acredito que estamos passando por um fenômeno muito maior do que a gente consegue visualizar ou constatar, que nos remete à socialização da ignorância e de uma espécie de cegueira intelectual.

No passado, os aprendizes comprometiam-se firmemente com o processo de formação (é sabido que no século XIX, só para dar um exemplo, os estudantes de arte treinavam 8 a 12 horas diárias, tanto nas academias como nos ateliês) e a crença de que “grandes pintores foram invariavelmente grandes técnicos” (como defende Jonathan Brown) era não só uma exigência como fato.

Na arte atual, os pressupostos místicos, de que o artista é mensageiro da verdade divina (o dom tornando-o porta voz de Deus) - e daí a conveniente jusfiticativa  para a falta de estudo, ou de que, para ser artista, basta definir-se verbalmente como tal, criaram um estado de alienação do qual muito poucos artistas tem consciência. Ao afastar o pensamento e a técnica do fazer artístico (que pode ser traduzido como treino disciplinado da percepção, compromisso com o estudo e análise de natureza técnica), criou-se um ser alienado, acrítico (um analfabeto visual, na concepção de Donis A. Dondis), incapaz de entender o que faz e de ver a si mesmo no processo. O desejo de ser artista tornou-se muito maior do que o de aprender a fazer ou pensar o fazer.

E essas condições desembocaram num fenômeno social estranho, típico de nosso tempo, mas extremamente comum, do indivíduo que não sabe que não sabe, diametralmente oposta àquela concepção muito comum entre os sábios, segundo a qual quanto mais conhecimento temos, mais consciência tomamos de que nada sabemos. E esta consciência leva a um grau muito maior de responsabilidade, coisa que dificilmente constatamos entre os que não sabem que não sabem.

No caso dessa senhora, podemos verificar a atitude contrária: se dependesse dela, retomaria a pintura para "terminar" o serviço. Não é, portanto, difícil deduzir por que ela não se recusou a princípio entrar em tal empreitada. E este tipo de ignorância torna o indivíduo cego, arrogante e irresponsável, por não ter a menor dimensão das implicações do ato.

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